Nenhum objeto resiste ao tempo

Era uma parede de histórias.

Hoje são restos.

Nenhum objeto resiste ao tempo.

Nem mesmo uma parede de incontáveis cores.

Quantas cores seriam necessárias para se resistir ao tempo?

Nenhuma cor resiste ao tempo.

Mas sempre foram restos.

Por que os restos de uma parede quebrada se fazem menos importantes do que os restos de uma parede em pé?

Não seria a mesma parede? Não são os mesmos pedaços?

Quanto mais desordem, menos importância?

Se cai e quebra, deixa de se fazer necessário?

Se quebrou, dividiu as memórias em pequenos pedaços.

Como contabilizar as lembranças de cada pedaço?

Cada pedaço traz a lembrança de um quadro.

Mas se as tintas se sobrepõem, cada pedaço pode trazer o registro não visível de incontáveis obras.

Respingos e restos e sobras escorrem, transpassam. E permanecem.

Sobrepostos. Em seus incontáveis encaixes de cor.

E mutação constante.

Criando uma harmonia pictórica de tintas esquecidas.

Que não puderam fazer parte de nenhum quadro que por aqui já passou.

Mas se agrupam na maior obra que aqui esteve.

Agrupamento de restos.

Cores que observam o tempo passar.

Coladas ali ardendo ao sol com alguns dias de muita chuva e bem poucos de frio.

Ainda que tímida em altura, podia ser vista de longe.

Mas ao longe mesmo, quem avista é ela.

Acompanhou todos os tempos numa distância a perder de vista.

Esteve por todo o tempo.

Até que seu tempo chegou. E nada foi capaz de impedi-lo de chegar.

O processo de desmoronamento se iniciou lentamente.

Deixando-me observar cada peça cair.

Pedaços maiores, pedaços menores. Escombros de cor.

Fiquei imóvel observando. Estática numa reflexão sobre quantas memórias existiam em cada pedaço da parede em forma de entulho pelo chão.

Ao tempo da poeira baixar, comecei a recolhê-los.

Como um ato desesperado de não deixá-la ir.

Ou como uma espécie de pequenas lembranças de momentos que ali vivi.

Pedaços de partes que vivi.

Para me lembrar que nada volta. Nada nunca será como antes.

E se um dia somos paredes fortes vibrando cor,

no outro somos escombros pelo chão. E faz parte.

Escombros são necessários para que novas tintas escorram.

Começa a descer o branco.

Retiro com minhas próprias mãos as partes de cor que querem permanecer vivas aceitando seu novo formato e destino.

As cores que permaneceram agarradas à parede, nem a espátula foi capaz de soltá-las.

E aos poucos foram sendo soterradas pela tinta branca que tudo cobriu.

No fundo, elas conseguiram o que queriam. Permanecer.

Mesmo atrás de uma espessa camada de tinta branca.

Guardadas nas memórias e nos registros de quem as viu.